Aventuras e desventuras de uma futura inquilina

Por Vera Lucas – vera.lucas@balzaqueando.com

Depois de fazer dezenas de contas, Flávia, de 36 anos, concluiu que precisava se mudar para um apartamento menor e dar adeus ao seu de dois quartos. A crise financeira entrou por uma porta e ela tinha que sair por outra.

Flávia deixou claro para os corretores o sonho dela: prédio familiar, quarto e sala, ventilado, espaçoso e com armários. Todos lhe perguntaram quantas pessoas iriam residir no imóvel. Pergunta simples, né? Nem tanto, ela descobriu depois. Mas na hora não soube ler nas entrelinhas e fez a besteira de responder a verdade: “Só uma, eu”. Aí começou o calvário da professora universitária. E bota calvário nisso!

O primeiro apartamento que visitou seria bom, se não fosse pelo detalhe das janelas. A sala não tinha, o basculante da cozinha dava para as escadarias do prédio – os moradores a veriam – e a do quarto era mínima. Decididamente, Flávia e a claustrofobia dela não seriam felizes ali. O corretor, ainda tentando fechar negócio, se saiu com essa: “A senhora liga todos os ventiladores e vai ficar bem fresquinho”.

O segundo imóvel não possuía tanque, nem local para instalar a máquina de lavar roupa. O corretor resolveu o problema. “A senhora pode lavar as roupas no lavatório.” Ela se imaginou tentando lavar uma calça jeans com sabonete.

Já no terceiro apartamento visitado, a cozinha era tão pequena que não cabia um fogão. “A senhora não tem jeito de quem gosta de cozinhar, aqui embaixo tem um restaurante ótimo”. Flávia criou a cena: poderia jogar uma corda do sétimo andar e o garçom amarrava a marmita nela.

Flávia realmente não estava entendendo… Especificou o que desejava e só a levavam para ver apartamentos que eram o ó do borogodó! Ela ligou para as imobiliárias em questão e armou o maior barraco. Que não lhe chamassem mais para ver porcarias!

Enfim, começaram a mostrar imóveis habitáveis. E, finalmente, Flávia percebeu.  A mesma mulher sozinha que ouve, em uma oficina, que o defeito do carro é na rebimboca da parafuseta, também não é considerada inteligente, por alguns corretores, para alugar um imóvel. Como na opinião deles Flávia, por ser mulher, era burra, tentaram lhe empurrar qualquer droga.

Mas a aventura não parou por aí. Quando gostou de três apartamentos, ela descobriu que mulher sozinha também não é confiável para ser inquilina. Uma imobiliária queria que Flávia pagasse os doze primeiros meses de aluguel adiantados. Acharam que ela tinha cara de caloteira…

Outra só fechava negócio se ela desse R$ 10 mil de seguro. O valor seria devolvido, sem correção, quando Flávia entregasse o imóvel inteiro.  O corretor nem disfarçou: “A senhora sabe, mulheres que moram sozinhas costumam dar muitas festas e podem depredar o apartamento”.

E o terceiro o corretor a inquiriu sem dó, nem piedade.

– A senhora costuma gritar à noite incomodando os vizinhos?

 Flávia, de saco cheio, chutou o balde.

– Só quando tenho as minhas crises.

O corretor fez uma cara de surpresa, mas não se tocou.

– Vai guardar algo ilícito no imóvel?

– Apenas armas e drogas.

O corretor pensou que ela fosse brincalhona.

– A senhora pretende realizar algum tipo de comércio no apartamento?

Foi à gota d´água. Flávia pegou a bolsa, levantou e respondeu bem alto:

– Eu ia transformá-lo na Casa da Mãe Joana, mas, pensando bem, aqui não é um bom ponto.

Arrasada, Flávia contou todo o seu drama para uma amiga. Rindo, ela comentou que já passara pela mesma situação e deu o conselho: “Você precisa encontrar um falso marido! Pede para um amigo, um primo, e vai com ele alugar o apartamento. Tem muito corretor machista por aí.”

Pois não é que deu certo? Na primeira imobiliária que Flávia foi com um colega, também professor, alugou o imóvel dos sonhos dela, sem precisar ver muquifos, adiantar aluguéis ou passar por constrangimentos.

Fica aí a dica. Entre outras qualidades, além de abrir vidro de palmito, um homem é perfeito quando uma mulher sozinha quer alugar um apartamento. Pelo menos enquanto os valores da sociedade não mudarem.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *