Tudo por causa de um guarda-chuva

Por Vera Lucas – vera.lucas@balzaqueando.com

Esses conceitos de que a mulher tem que ser discreta, falar baixo e ser sempre meiga são machistas. Às vezes é muito bom e necessário armar um barraco. Faz bem a alma e impõe respeito. Eliane pensa e age assim.

A dentista, de 40 anos, chegou ao restaurante com alguns amigos. Sentaram-se à mesa e ela colocou o guarda-chuva no chão. As nuvens carregadas daquele domingo não eram um bom sinal. Imediatamente uma funcionária tratou de “levar o guarda-chuva para um local adequado”. Eliane ainda argumentou que não precisava, mas a jovem o colocou dentro de um cone meio quadrado.

Na hora de sair, surpresa! A sombrinha de Eliane sumira, desaparecera, evaporara. O gerente ainda tentou enrolá-la.

– São coisas que acontecem, talvez outro cliente tenha levado por engano… Infelizmente não podemos nos responsabilizar por objetos perdidos.

Pronto, mexeram com ela.

“Como assim, cara pálida? Eu não perdera nada, eles é que surrupiaram o meu guarda-chuva! Eu tinha duas opções. A primeira era aceitar de cabeça baixa a situação. A segunda era fazer prevalecer os meus direitos. Vou abrir um parêntese e explicar que eu não estava preocupada com o valor financeiro em questão, o problema era engolir aquele desaforo. Parêntese fechado.”

Começou o bate-boca. Os amigos olhando. Continuou o bate-boca. Todos olhando. Terminou o bate-boca quando Eliane entregou o cartão dela com o número do telefone e, como chovia muito, levando para casa um guarda-chuva enoooooorme do restaurante.

Na manhã de segunda-feira, ligaram avisando que o guarda-chuva fora encontrado.

“Eles devem ter achado que eu nem apareceria para buscá-lo. Ledo engano, aquilo havia se tornado um caso de honra para mim. À noite, marquei presença. Você não imagina a cara de surpresa do gerente ao me ver e o quanto ele tentou, mais uma vez, me embrulhar.”

– O guarda-chuva está trancado no armário e um funcionário, por engano, levou a chave para casa.

– Você está duvidando da minha inteligência?

 Recomeçou o bate-boca.

– Manda esse funcionário vir aqui agora abrir o armário.

– Ele mora muito longe, tem que pegar um trem e dois ônibus.

– Então arrombem o armário!

Continuou o bate-boca. Os outros clientes estavam se divertindo com aquilo que classificavam de baixaria, uns tomaram as dores de Eliane, outros do gerente. “Arromba! Não arromba!”

– Vou sair daqui direto para a delegacia e prestar queixa contra o restaurante.

Ela não foi. Voltou para casa carregando o guarda-chuva deles. Já estava até gostando daquela marquise ambulante. Depois, contou para a irmã, que foi categórica:

– Pode dizer adeus ao seu guarda-chuva.

Pois sim!

Na terça-feira Eliane foi acordada com o barulho do interfone. Era o porteiro avisando que um homem queria entregar-lhe um guarda-chuva.  Ela desceu com o do restaurante e fizeram a troca. Era o de Eliane mesmo, o vermelho.

– Olha, não sei quem o pegou, quem quis dar uma de esperto… O importante foi que criei caso por achar que estava certa e tive de volta o que me pertencia. Armei um barraco? Armei. E se todas nós agirmos assim, vão pensar duas vezes antes de tentarem nos passar para trás.

Detalhe, dias depois, Eliane jantou no mesmo restaurante. Não, não chovia. Na saída, a atendente se despediu dela.

– Obrigada e boa noite, dona Eliane.

Ela ficou famosa, pelo menos por lá…

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