Paralimpíadas – Vôlei Sentado

Por Gabriel Gontijo – gabriel.gontijo@balzaqueando.com

Dia 29 de dezembro de 2011 é uma data que a fisioterapeuta Camila Castro não esquecerá. Na época com 29 anos (atualmente está com 34), ela voltava do trabalho para casa quando um acidente mudou sua vida. Ela chegou a ficar um ano sem poder andar, mas o esporte transformou sua vida. Camila faz parte da Seleção Brasileira Feminina de Vôlei Sentado e irá disputar a Paralimpíada Rio 2016. Num bate-papo com o Balzaqueando ela fala um pouco sobre o acidente que mudou sua vida, a entrada no esporte paraolímpico e as dificuldades que ela encontra por conta da deficiência.

14269314_1100711183353735_237658706_nComo aconteceu o acidente que te deixou com deficiência?
No dia 29 de dezembro de 2011 eu estava dirigindo minha moto – eu já dirigia há 8 anos –, estava parada em um sinal na Rua Humaitá e, infelizmente, uma pessoa que vinha atrás de um carro não viu a moto, não viu o trânsito – depois até confessou no Boletim de Ocorrência. Tive uma lesão gravíssima no pé, uma lesão rara: fratura-luxação de Lisfranc. Eu demorei um ano para voltar a andar e isso trouxe uma alteração na minha marcha, na forma de caminhar. Com isso adquiri uma patologia na coluna e estou perdendo a enervação de alguns músculos do membro inferior direito da perna direita que está afetando tanto a força quanto o equilíbrio.
Ficou uma sequela gravíssima no pé, como se fosse uma artrose bem severa que gera limitações no dia a dia, nas formais mais “banais”, como tomar banho, fazer comida, arrumar a casa… Não consigo ficar em pé por mais de 10 minutos, porque sinto uma dor muito forte. Estou completamente proibida de praticar qualquer atividade que cause impacto, como correr ou saltar. Também não posso usar sapato, nem chinelo. Só posso usar um calçado, um tênis especial que tem uma palmilha confeccionada por um engenheiro biomédico, então estou um pouco presa a esse tênis com a palmilha especial pra poder ficar um pouco em pé, pra me sustentar.

Você trabalhava em qual área antes do acidente?
Eu estava voltando do trabalho. Por acaso, eu era fisioterapeuta e trabalhava com recuperação cardíaca. Fazia toda a parte pós-intervenção cirúrgica ou com pacientes com quadro cardio-pneumático. Então eu trabalhava como se fosse uma personal trainer. Trabalhava todo o condicionamento aeróbico da pessoa. Depois do acidente estou incapacitada de atuar na área.

E como o esporte paralímpico surgiu em tua vida?
Eu sempre joguei vôlei, desde 8 anos. Joguei federada no Rio de Janeiro, defendi a seleção carioca, joguei em São Paulo e terminei minha carreira em Portugal defendendo um clube de lá. Até os 24 anos joguei profissionalmente. Eu sofri o acidente com 29 anos e fiquei com uma depressão profunda, porque perdi o voleibol, perdi o emprego, foi um ano para eu poder voltar a andar, dependendo de pai, mãe, irmão e amigos pra comer e me locomover. E o meu namorado joga vôlei sentado pela equipe do Vasco da Gama aqui o Rio…

Então você já namorava alguém com deficiência?
Comecei a namorá-lo no final de 2013, justamente quando voltei a andar, quando pude sair mais e aí eu o conheci. Estava visitando o treino do Vasco. No primeiro treino eu fui com uma roupa social, mas no segundo eu já estava com uma bermuda e tênis na mochila. Daí a técnica perguntou se eu queria fazer parte da equipe. Obviamente, em menos de três minutos eu já estava pronta na quadra e voltei a sorrir e a praticar o esporte que é a minha vida, que eu mais amo fazer no mundo. Foi uma descoberta maravilhosa, porque toda aquela tristeza do acidente, aquela coisa pesada se traduziu em uma nova visão, numa nova descoberta.

Qual o local que você costuma treinar aqui no Rio?
Aqui no Rio só existe a equipe do Vasco da Gama de vôlei sentado. Então eu treino no Vasco segundas, quartas e sextas à noite, em São Januário mesmo, mas pelo campeonato brasileiro eu defendo a ADCEGO, Associação dos Deficientes Físicos do Estado de Goiás, pois o time vascaíno é masculino, não tem equipe feminina.

Imagino que a sua rotina é bem difícil. Como você faz pra se deslocar para os treinos?
Tem que ter muito amor ao que faz mesmo, porque eu saio de casa com até duas horas e meia de antecedência pra chegar às sete ou sete e meia da noite. Cinco horas ou até antes, eu já estou saindo de casa, porque se for às cinco da tarde o ônibus pode vir lotado e não vou ter onde sentar e, nem sempre as pessoas cedem lugar aos deficientes. Então é uma luta a questão da condução e, às vezes, saio às quatro, já que é um horário mais flexível de trânsito.
Vou andando até a Lagoa Rodrigo de Freitas – por serem dois quarteirões, consigo andar essa distância – depois pego outro ônibus até o Largo da Cancela em São Cristóvão e de lá pego outro ônibus que me deixa na Barreira do Vasco, próximo ao clube. Na volta a gente tenta pegar uma carona até a Leopoldina, pelo menos, e de lá pego outro ônibus, passo pelo Túnel Rebouças até a Lagoa. Às vezes aparece uma carona que me deixa no Maracanã para pegar o metrô até Botafogo e de lá pego um outro ônibus para voltar pra casa. Chego em casa por volta de meia-noite, pois o treino acaba entre dez e dez e meia da noite.

Viver do esporte de forma convencional no Brasil não é uma tarefa fácil. Viver do esporte paralímpico deve ser bem mais difícil. Você vive só do esporte ou tem outra profissão que você precisa conciliar?
Eu tenho que ter outra profissão pra conciliar. Nós recebemos o Bolsa Atleta. Por enquanto eu recebo a categoria nacional porque eu fui segunda colocada no Campeonato Brasileiro de 2015, mas é um valor que não dá para sobreviver, é inviável. São R$925,00. Esse é o valor nacional para quem ficou em primeiro, segundo ou terceiro no Campeonato Brasileiro. A bolsa internacional já é maior, são R$1.900,00. E participando de um Parapan-americano ou Paralimpíada o valor vai para R$3.100,00. Este ano fui candidata referente ao ano de 2015 pelo vice-campeonato brasileiro e até o mês de julho eu não tinha recebido nenhum valor referente ao Bolsa Atleta. As parcelas tem que cair até dezembro e aí, teoricamente, teriam que cair as 12 parcelas. Mas ano passado ficamos sem receber algumas parcelas. É um pouco complicado, até os atletas de ponta paraolímpicos sofrem bastante, pois às vezes ele tem que abdicar do trabalho para investir o tempo e o foco no esporte, mas não tem como contar exclusivamente com o dinheiro do Bolsa Atleta. Se a pessoa precisa desse recurso para pagar uma conta de água, luz e telefone infelizmente não consegue.

Vôlei Sentado

E quais são as diferenças do vôlei comum para o vôlei sentado?
O vôlei sentado tem praticamente as mesmas regras do vôlei convencional. A quadra é um pouco reduzida, a altura da rede no feminino tem 1,05 m de altura e nós temos que jogar com os glúteos no chão. No momento em que a gente tem que tocar na bola a gente tem que estar com o bumbum no chão, não pode elevar os quadris. Para deslocar, pra buscar a bola, pode elevar o quadril, mas com a bola no ar. Na hora de tocar nela, o quadril tem que estar no chão, senão é falta e ponto para o adversário. A única diferença para o vôlei comum é que a gente pode bloquear o saque, algo que no vôlei convencional, não pode.

A equipe brasileira iniciará a batalha em busca da medalha de ouro no dia 9 de setembro, numa sexta-feira, às 18h30min no Parque Olímpico da Barra jogando contra o Canadá.

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