Substâncias presentes no meio ambiente aumentam casos de endometriose grave

Doença afeta aproximadamente 10 milhões de mulheres de todas as faixas etárias no Brasil

Após analisar estudos realizados desde 1980 com adolescentes operadas por endometriose, pesquisadores da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, concluíram que a incidência de casos graves no grupo etário cresceu significativamente na última década. Antes pouco frequentes, os episódios severos já respondem por cerca de um terço dos casos. Entre as possíveis razões está o aumento da exposição aos chamados desreguladores endócrinos, agentes químicos capazes de afetar a interação hormonal no organismo. Essas substâncias podem ser encontradas no ar, na água e até em alimentos.

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O ginecologista Marco Aurélio Pinho de Oliveira, chefe do ambulatório de endometriose do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), destaca que entre as principais preocupações estão a dioxina — liberada na incineração de lixo, resíduos industriais, fumaça de automóvel e até mesmo de cigarros — e o bisfenol (BPA), matéria prima da resina epóxi e do policarbonato, um dos tipos de plástico mais comuns. Em 2011, a Anvisa baniu o BPA em mamadeiras, mas o uso em outros produtos ainda é permitido.

“O composto pode ser expelido facilmente caso seja aquecido. Um exemplo de prática perigosa é a utilização em fornos micro-ondas de recipientes não certificados pelo Inmetro para esse fim”, alerta Marco Aurélio. Os cuidados individuais, contudo, não são necessariamente suficientes. “Se considerarmos, por exemplo, as altas temperaturas nos caminhões que transportam produtos como garrafas de plástico, é possível imaginar que as bebidas e alimentos cheguem ao consumidor já contaminadas por BPA”, pondera.

Além do BPA e da dioxina, pesticidas, metais pesados e conservantes alimentícios, entre outros, também já foram relacionados com a endometriose. Cada um comporta-se de uma forma, mas todos prejudicam o sistema imunológico do trato reprodutivo, aumentando a sensibilidade às inflamações inerentes à doença.
Convivendo com a endometriose

A estudante de direito Jéssica Lopes sentiu os primeiros sintomas logo aos 14 anos. Eram cólicas fortes, dificuldade para urinar e dores de cabeça tão intensas que a obrigavam a passar boa parte do dia em um quarto totalmente escuro. “Antes de receber o diagnóstico, cheguei a frequentar um neurologista e a me submeter a uma tomografia computadorizada para verificar o cérebro”, relata.

Hoje tratada, ela lembra que também precisou suportar falta de compreensão de conhecidos. “Ouvi várias vezes — especialmente quando faltei aulas ou deixei de fazer outras atividades cotidianas — que as minhas dores eram normais. Chamavam-me de fresca”, desabafa.

A endometriose de Jéssica, avançada, foi confirmada um ano depois do início dos incômodos, fato relativamente incomum: em média, de acordo com estudos internacionais, a enfermidade leva sete anos para ser diagnosticada. As razões são os sintomas inespecíficos e, justamente, a crença de que sentir dor é normal.
A Endometriose

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É um processo inflamatório decorrente do crescimento das células do endométrio, que reveste o interior do útero, em outras regiões do organismo. Diversos órgãos do sistema reprodutivo e até mesmo o intestino podem ser acometidos. Entre outros sintomas, causa infertilidade, dores durante as relações sexuais, bem como ao evacuar e urinar. Estima-se que 10 milhões de mulheres sofram do distúrbio no Brasil.

Para definir se o quadro é ou não de endometriose, o ginecologista tem à sua disposição a história clínica (cólicas menstruais fortes e progressivas), a ressonância magnética, única indicada a meninas virgens, e a ultrassonografia transvaginal — ambas com preparo especializado. Esses recursos, entretanto, nem sempre conseguem identificar lesões inferiores a 1 centímetro. Os focos pequenos podem ser visualizados por meio da laparoscopia, mas, como se trata de um procedimento cirúrgico, ela hoje é muito mais usada no tratamento do que na detecção.
Tratamento

O diagnóstico, portanto, é muitas vezes fundamentado apenas na análise clínica da paciente. Uma vez que os indícios apontem para a doença, o tratamento pode ser realizado com contraceptivos hormonais de uso contínuo, capazes de bloquear o fluxo menstrual e, consequentemente, minimizar as dores típicas do período. Para as que não responderem bem ao medicamento, é recomendada a laparoscopia.

É importante destacar, ainda, outro aspecto fundamental na escolha da abordagem terapêutica: a vontade de engravidar. Se a mulher decidir ter filhos, ela precisará ser submetida à laparoscopia ou a técnicas de reprodução assistida, como a fertilização in vitro — especialmente indicada quando não há queixas de dores e as lesões de endometriose não são muito extensas.

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