Da quantidade de tempo e da qualidade de nossas vidas

Por Irma Lasmar – irma.lasmar@gmail.com

Envelhecer é despedir-se. Despedir-se dos outros, das coisas, de si mesma. Despedimo-nos das pessoas que perdemos para a morte ou para a própria vida em seus caminhos por vezes inexplicáveis e irreversíveis; despedimo-nos daquilo que outrora possuímos e acabamos não controlando por motivos diversos: uma carta, uma foto, um presente, um gosto, um cheiro, uma memória; despedimo-nos de nós próprias quando percebemos que mudamos daquilo que éramos, querendo ou não, distanciando-nos da nossa essência inicial – para melhor ou para pior.

Quanto mais envelhecemos solidificamos a escolha de uma atitude diante da vida. Mas também nos despedimos da própria existência, uma vez que o passado parece maior do que os projetos futuros. E diante da possibilidade de escassez de tempo, diante de um entorno repleto de despedidas e saudades, damos maior valor ao que temos, guardando na mente, no coração e na alma, para que não percamos como tantas outras coisas – por ignorância, inocência, ansiedade ou burrice.

Cada idade completa é, na verdade, um algarismo melhor simbolizável como número negativo. Ter vinte, trinta ou quarenta anos significa realmente ter menos vinte, menos trinta, menos quarenta. Pois, no fundo, nossos anos já passaram, e meus atuais 41 representam quarenta e um anos a menos para eu viver. Ganho em número mas perco em tempo cronológico. Os gregos separaram o tempo quantitativo e qualitativo em, respectivamente, chronos e kairós – este último, sinônimo de momento oportuno, que a teologia passou a denominar “o tempo de Deus”.

Não há relógio biológico que controle o kairós. Se plantamos nossa vida com determinação, persistência, foco, disciplina e ética, colhemos os frutos que queremos; o volume e a beleza deles, no entanto, dependem também das intempéries e de outros fatores externos, como a interferência daqueles que nos querem mal (e eles existem). Chronos passa, quase nos desestimula com sua incontrolável velocidade, porém kairós – o momento oportuno – depende de nossa experiência, sensibilidade e equilíbrio emocional.

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