Mayer, Diesel, Biel, Bon Jovi, você e eu

Por Irma Lasmar – irma.lasmar@gmail.com

O lamentável episódio de acusação de assédio sexual contra José Mayer feito pela figurinista Susllem Tonani, ambos da TV Globo, provavelmente trouxe à tona um problema recorrente na empresa, vide o grande número de adesões de atrizes e funcionárias ao movimento “Mexeu Com Uma, Mexeu Com Todas” criado na ocasião. Se fosse uma ocorrência pontual, a mulherada não teria feito tanto barulho.

O pedido de desculpas do ator foi tão belo quanto rápido demais para um sessentão com histórico de conquistador – pelo menos com a vítima em questão. Com certeza ele ficou envergonhado tamanha a magnitude que o assunto tomou, primeiro negando o crime para em seguida admiti-lo. Todo mundo tem o direito (para não dizer o dever) de se arrepender e se corrigir, mas movido por pressão midiática e constrangimento público eu tenho lá minhas dúvidas de tal espontaneidade.

Dias depois os programas de TV, da emissora e de outras, debateram quase exaustivamente o assunto. Estão certas. Porém dificilmente o reconhecimento de exageros por parte dos machões de plantão será tão imediato. É uma vida inteira – tenham os caras vinte, cinquenta ou cem anos – perpetuando a criação familiar enraizada desde seu nascimento.

Ao comentar a questão no programa Encontro Com Fátima Bernardes, Oscar Magrini se mostrou indignado mas escorregou no politicamente correto e disse que “a mulher tem que estar atenta para não instigar o homem”. Talvez ele realmente não compartilhe com a opinião e o comportamento do colega de elenco, só que demonstrou também acreditar – como um em cada três homens – que a mulher às vezes provoca a violência ou ofensa que recebe, seja por excesso de simpatia ou escassez de pano na saia.

Outros tantos artistas na história da humanidade se valeram do pseudo-poder da notoriedade e abusaram no palavreado desrespeitoso, como MC Biel com a repórter Giulia Pereira (“…Se eu te pego te quebro ao meio…”) e Vin Diesel com a youtuber Carol Moreira (…Você é tão sexy… vamos pra outro lugar…), só para citar alguns. Bem fez Bruna Lombardi, que experiente e empoderada deu um fora em Jon Bon Jovi após uma cantada durante uma entrevista – coisa leve, mas suficiente para repercutir na época.

O contrário também acontece, de mulheres importantes em cargos superiores pressionando seus subordinados a fazerem o que elas querem – em todos os sentidos. Mas atenção: ao pensarmos que homens nesta situação estariam menos desconfortáveis do que as mulheres, e até mesmo gostando de investidas e chantagens sexuais por serem homens, agimos nós como machistas ao nos colocarmos na condição de únicas possíveis presas fáceis e frágeis de um problema social que não é exclusividade feminina. Lembrando que não estamos falando de estupro, onde a força física masculina se sobrepõe à nossa, e sim ao constrangimento verbal, que é uma agressão independentemente de gênero, e suas consequências valem para ambos os sexos.

Que fique então mais um “case” para debate e reflexão, de todas as partes indistintamente; somos falhos e estamos na eterna estrada do aprendizado, cheia de pedras e buracos que nos fazem fraquejar mas que também nos fortalecem ao proporcionar as dores que, de tão doloridas, não queremos ver nos outros.

Aliás, esse é o princípio do certo e errado: a não-violência. É violência tudo o que machuca física ou moralmente, sejam os outros ou nós mesmos. O que apenas incomoda nossas crenças e modo de vida, mas não nos lesa, é apenas direito individual e diversidade. E este obviamente não é o caso de Mayer & Cia. – pois a liberdade dele deve terminar quando cerceia, acua, julga, manipula e domina a existência alheia.

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